quinta-feira, 6 de junho de 2013

Crônica

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Crônica

ERRO DE PORTUGUÊS


         Tenho, hoje, a missão de relatar aqui um fato ocorrido na época em que fui alfabetizada.
         Sempre fui uma boa aluna e consegui ser alfabetizada em poucos meses. Só na 1ª série, terminei a cartilha (Caminho Suave), o livro da 1ª e o da 2ª e precisei entrar em férias mais cedo, porque segundo a professora, não tinha mais o que fazer, já que não poderia fazer o livro da 3ª série.
         Minha escola ficava na zona rural e por isso a classe era composta pelas três séries iniciais. Nossa professora era baixinha, tinha um pé pequenino e usava sempre um lenço de crochê vermelho ou azul. Estava sempre muito séria e fazia questão de manter a classe na mais perfeita ordem.
         Naquele dia, D. Marlene ensinou uma matéria nova de Português: família de palavras. Depois da explicação, ela colocou uma lista de palavras na lousa, a partir da qual deveríamos formar as famílias.
         Sou filha de migrantes mineiros e minha mãe possuía, ou melhor, possui um vocabulário um tanto peculiar. Só mais tarde percebi que ela usava alguns termos diferentes como “pandu” ao invés de estômago, “madorna” significando cochilo e tantos outros que ela mesma criava ou pronunciava de outra forma.
         O fato é que diante da lista da professora me deparei com a palavra dor. Então, não tive dúvida e coloquei entre a família a palavra doraiada que tantas vezes tinha ouvido mamãe dizer.
         Terminada a tarefa levei-a para que a professora corrigisse, como de costume. Ela leu uma por uma e de repente pôs-se a rir repetindo a bendita palavra. Quase sem poder se conter, disse: “Coloque uma palavra mais bonita como doloroso, por exemplo”.
         Fiquei morrendo de vergonha. Aliás, aquela era a primeira vez que me via em tal situação.Voltei à carteira e corrigi o trabalho.Apesar de me sentir culpada, aquele foi um dia muito especial, afinal foi a primeira vez, em quase dois anos, que vi minha professora sorrir.


                                     EDILAINE TAVARES DA SILVA ANDRADE
                                               (atividade proposta na reunião do Saresp )



Um comentário:

  1. Eu cresci em meio a pessoas de pouco estudo e até hoje convivo com "alguns destes usos próprios" da fala regional rural. Tenho uma vizinha,senhora já dos seus 70 anos, que desistimos de tentar fazê-la incorporar outras formas e acabamos nós utilizando a dela quando estamos reunidos...é muito interessante conviver no meio de variantes e aprender a mostrar para o aluno que isto é real e que ele pode ampliar seu universo sem perder o referencial

    ResponderExcluir